A gente tem se machucado tanto que a possibilidade de um novo amor assusta.
E tem gente que não vai me deixar chegar perto porque não confia em mais ninguém.
Quanto mais converso e observo as pessoas, mais percebo que meu medo é o de chegar pra dizer que tô aqui e tô disposto, que eu vou devagar, não tenho pressa, quero deixar o amor engatinhar pra ver se você acredita em mim, e ter tudo negado. Com um olhar baixo e os braços cruzados em defesa, ouvir de alguém que “desculpa, meu bem, não foi você, foram as outras e eu não consigo mais”. Porque, meu bem, acredite você ou não, não depende muito da gente. Tem pessoas que passam por muita coisa, muito além da montanha-russa, histórias que a gente nem imagina como fizeram mal, como magoaram e como podem causar dor. E por mais que eu queira, por mais que você queira, talvez aquela pessoa da sua vida não esteja preparada pra você – ou não esteja preparada nunca mais. Pode ser que ele não te deixe chegar perto de tão desacreditado que está, e isso não é culpa de ninguém.
Eu posso imaginar a dor e tudo mais. Posso imaginar como é ruim pra quem a gente gosta e como esse processo de recuperação é difícil. Tem gente que nunca se cura de um coração definitivamente partido porque, bem, não foi só dessa vez, agora foi só o estopim. Você consegue ver o lado do outro e dizer que vai ficar tudo bem? Não tem como prometer isso, mas a tentativa é válida se for sincera, se você realmente quiser cuidar de alguém. A gente luta por dois, levanta escudo pra ver se o outro baixa, vai junto e promete o cessar fogo assim que as coisas estiverem bem. Mas não tem jeito e a gente sofre com a possibilidade de ser repelido porque ali não cabe mais nada a não ser dor.
Daí começa o efeito dominó: enquanto um repele por não aguentar mais, o repelido talvez se canse de tentar depois de tanta estrada e tanto choro. Depois da esperança plantada e retirada à força por alguém com medo, aquele amor todo pode despedaçar e dar lugar ao isolamento. Fabricamos, assim, mais corações pesados, receosos, despedaçados e guardados num baú. Pensando melhor, meu maior medo talvez não seja encontrar alguém assim e não poder fazer nada pra ajudar. O medo mesmo é me tornar alguém assim, cuja ferida nunca cicatriza.



